quarta-feira, 29 de abril de 2015

Não é uma canção de amor




Eu,
Eu queria falar de algo bom,
Aí então, lembrei de ti.
Não,
Esta não é uma canção de amor,
Ela só fala um pouco,
Um pouco de ti.



Deste seu cabelo raspado,
E este teu jeito desajeitado.
E esta tua barba,
Que você quase nunca faz,
E eu gosto assim,
Ainda mais quando está perto de mim.
E quando você faz pipoca,
Aquelas de panela,
Elas são tão boas,
Pra gente matar a larica.
E quando o teu irmão,
Faz mágica com todos os meus isqueiros,
Eu nem ligo que eles somem,
Porque eu compro outros.



Eu,
Eu queria falar de algo bom,
Aí então, lembrei de ti.
Não,
Esta não é uma canção de amor,
Ela só fala um pouco,
Um pouco de ti.



De quando a gente vê TV,
É tão engraçado,
Ver o programa do Ratinho,
Sentada do teu lado.
E essa tua mania,
De acordar cedo no sábado,
Eu não tenho nada haver,
Se você tem que trabalhar.
E das nossas voltas com a tua Effinha,
Foi tudo sempre tão divertido,
A gente via macacos andando nos postes.
E na hora de ir embora,
É: nã nã nã nã nã nã,
Nã nã nã nã nã,
Nã nã nã nã nã nã...



Eu,
Eu queria falar de algo bom,
Aí então, lembrei de ti.
Não,
Esta não é uma canção de amor,
Ela só fala um pouco,
Um pouco de ti.

Uma geração inteira de felicidade

Desde lá nos anos mil novecentos e trinta e alguma coisa, as pessoas por aqui, nesta hora, viam além desta linda neblina matinal, um engenho super legal, que além de servir pra moer cana e fazer melado no tacho, também era cheio de becos legais pra brincar de esconde-esconde. 
E as paredes eram como tela de artes, onde toda e qualquer criança soltava a imaginação com pedaços de carvão.
Além disso, antes, o que se via por aqui eram a estrebaria e o rancho, ali no canto direito, onde de um lado, as vacas e cavalos conversavam sobre como a vida é engraçada e passageira, e do outro, as galinhas cacarejavam e botavam seus ovos no galinheiro.
No interior do rancho, na parede, ficava pendurando um saco velho de ração, cheio de pedras redondinhas e perfeitas, que nós mesmos pegávamos com o Vovô, no saco também ficavam os bodoques que ele mesmo fazia com pedaços das goiabeiras lá do pasto.
Ali no rancho, a gente também brincava de esconde-esconde, tratava as vacas, triturava os “capim-elefante” na máquina super legal do Vovô.
Falei das bananeiras? É, tinham várias ali ao redor. Sempre o Vovô deixava um cacho no rancho, pra gente dar pra Meca, enquanto ele tirava leite dela. Ah, aquele leite... Era tão bom. A Nona fervia pra gente beber junto com aquele baita café que ela fazia. E da nata que ficava em cima, ela fazia um queijinho que era de comer chorando, chimiado no pão que ela TAMBÉM fazia, com o melado feito lá no tacho do engenho, pelo Vovô.
Ainda sobre o Engenho... Nele, foi onde o Vovô fez um carrinho de madeira pra mim.
Sensacional né? Com assento, freio, tinha até volante.
E as escadinhas do Engenho, a gente descia e chegava até a janela de onde dava pra colher os “moranguinhos do mato” que estavam bem pertinho, e um pouco mais do lado, a gente pulava o arame farpado, pra colher uns limões e bergamotas, e depois íamos descer de zorra lá do topo do pasto.
Antes, nesta hora, o que se ouvia já eram os gritos de crianças felizes brincando, de toda e qualquer brincadeira nos arredores, bastava a imaginação.
Agora, o que se ouve, é apenas o barulho da máquina demolindo tudo. Colocando abaixo uma geração inteira de felicidade.
Só restaram as lembranças, muito boas por sinal.
Obrigada, Engenho, obrigada velho Rancho e Estrebaria, por cada dia que passei cometendo as mais sensacionais peraltices da minha infância.
E é com pesar, que comunico que ontem, se iniciou uma nova fase, aqui no sítio, que de sítio, já não tem tanto quanto eu gostaria. Com lágrimas ocultas, com nós na garganta, com saudades de tempos que não voltarão jamais, temos que seguir.
E realmente, as vacas e cavalos conversavam sobre algo real, sobre como a vida é engraçada e passageira.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Tua alma brilha no escuro

Queria te conhecer,
Além das boas músicas,
Das baitas desafinadas,
Afinal, tens direito.
Queria te conhecer
Além do YouTube
Além do soundclound
Além do facebook,
Além do meu celular.
Queria te conhecer
Conhecer este teu ser.
Este teu ser louco,
Que me liga cedo,
Após um trago,
Só pra jogar conversa fora.
Não tenho nada haver com isso,
Não tenho nada haver com nada.
Não podia escolher outra ouvinte?
Assim, a gente se aproxima,
E depois, tudo fica só na rima...
Queria te conhecer,
Além de dias chuvosos.
Além de cafés com poesia.
Muito além de qualquer dia.
Queria te conhecer,
Pra ter esta certeza,
Que por trás de tanta doideira,
Tem um puta coração ferido,
Pronto pra cicatrizar.
Não posso te oferecer nada.
Não posso ser mais que alguém
Que tu vai gostar,
E querer sempre por perto.
Eu e tu,
A gente sabe bem o que é o certo.
Queria te conhecer,
A tua alma mesmo, sabe?
Ah Carlinhos, tua alma brilha no escuro,
E eu tenho certeza,
Que é sem calor, nem combustão,
Ela brilha continuamente,
Por ser apenas natural como é.
Feito aqueles casais de vaga-lumes,
Prontos pra dançar feitos bailarinos,
Em meio às noites meio frias,
Meio estranhas,
Meio tensas,
Meio madrugadas
Deste outono cinzento.
Ah Carlinhos,
Se tu soubesses,
Quanto carinho,
Por ti, aqui dentro cresce.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um sexta no Black Bird.




Quebrei um copo no Black
O Bruno estava junto.
Ele viu a mesa se movimentar sozinha quando fui apoiar o copo.
A primeira vez é inesquecível.
Nunca tinha quebrado um tal de copo.
E entre tragadas leves de um bom Malboro filtro,
A fumaça dançava na imensidão daquela noite.
Olhei para o copo,
Tão ele,
Na dele,
No chão.
Percebi que aquele era o amor.
O meu amor.
Agora, feito dezenas de milhares de cacos,
Impossível colar...
Percebi que pessoas poderiam pisar ali,
Se cortarem.
Se ferirem.
O amor fere.
Corta.
Deixa cicatrizes.
Porque escolhestes assim?
Plantar uma semente,
E assim, tão simplesmente,
Não regá-la?
Deixou que esta flor murchasse.
E os dias que eram sempre primavera,
Se findam num outono frio,
Deste triste abril.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Viagem ao Monte

Eu já sabia,
Que você iria
Me deixar.
As coisas mudaram tanto,
Desde que você se foi.
O sol não brilha,
Também não chove,
Mas é frio,
É o mês de Abril.
E o Outono,
Que não me aquece,
E aqui só cresce a solidão.
Então decido comprar passagem,
Pra uma viagem
Onde eu vou demorar.
Eu vou pro Monte,
Aquele Monte,
O meu Monte de Cobertas,
Onde eu me encontro,
No meu quarto,
E aos quatro cantos
Eu ouço gritos de silêncio...

A gente

A gente
Combina tanto,
Mas agora,
Você foi embora.
A gente
Foi tão feliz,
A gente tomou banho
Naquele chafariz... de água.
A gente
Combina tanto,
Mas agora,
Você foi embora.
Você foi viver,
Suas fantasias,
E agora todo dia,
Eu fico tão triste.
Eu fico compondo,
Essas músicas
Tão loucas,
Sem sentido,
Pra ver se eu me sinto melhor.
A gente
Combina tanto,
Mas agora,
Você foi embora.
Sua liberdade,
Viver em outra cidade,
Está me matando.
A gente
Combina tanto,
Mas agora,
Você foi embora.
E cada dia que passa,
Eu vou morrendo aos poucos,
Eu ando, eu caminho, eu corro.
Eu quero acordar,
Formada na faculdade,
Com dois filhos mamando no peito,
E você ao meu lado.
A gente
Combina tanto,
Mas agora,
Você foi embora.
E eu não sei mais o que fazer,
Pra você voltar,
Será que você não vai notar,
Que a gente tem que juntos ficar...
A gente
Combina tanto,
Mas agora,
Você foi embora.
Acabou.

Não acreditem em músicos

Não acreditem em músicos,
Eles mentem no que sentem,
Eles mentem no que escrevem,
Eles mentem no que cantam,
Eles mentem no que tocam...
Ele mentiu quando me tocou,
E o meu sentimento ele assassinou.
E agora eu vejo que eu não sou música,
Porque eu não minto no que sinto...
E toda dor se apagará,
Na estrada em que eu pisar.
Então serás o pó dos meus calçados,
E vou lavá-los,
E toda água suja,
Escorrerá pelo ralo.
Mentiste pra mim.
Não acreditem em músicos,
Eles mentem no que sentem...

Meus outonos

Os meus outonos são sempre iguais,
Desejos de um futuro,
Lembranças que deixo pra trás.
Os meus outonos são sempre iguais,
É sempre Abril e eu odeio,
Este mês me traz receio.
Me traz dores de amores passados
Que ainda são lembrados.

Esta dor

As vezes eu penso que vou morrer com esta dor.
As vezes eu penso que esta dor me assassinará.
Aí eu lembro de tudo que já passei.
E então, respiro fundo, sinto este vazio.
Ele me consome.
No silêncio do meu quarto,
Eu choro e logo durmo...
E quando eu acordo,
Eu penso que vou morrer com esta dor.