Desde lá nos anos mil novecentos e trinta e alguma coisa, as pessoas por aqui, nesta hora, viam além desta linda neblina matinal, um engenho super legal, que além de servir pra moer cana e fazer melado no tacho, também era cheio de becos legais pra brincar de esconde-esconde.
E as paredes eram como tela de artes, onde toda e qualquer criança soltava a imaginação com pedaços de carvão.
Além disso, antes, o que se via por aqui eram a estrebaria e o rancho, ali no canto direito, onde de um lado, as vacas e cavalos conversavam sobre como a vida é engraçada e passageira, e do outro, as galinhas cacarejavam e botavam seus ovos no galinheiro.
No interior do rancho, na parede, ficava pendurando um saco velho de ração, cheio de pedras redondinhas e perfeitas, que nós mesmos pegávamos com o Vovô, no saco também ficavam os bodoques que ele mesmo fazia com pedaços das goiabeiras lá do pasto.
Ali no rancho, a gente também brincava de esconde-esconde, tratava as vacas, triturava os “capim-elefante” na máquina super legal do Vovô.
Falei das bananeiras? É, tinham várias ali ao redor. Sempre o Vovô deixava um cacho no rancho, pra gente dar pra Meca, enquanto ele tirava leite dela. Ah, aquele leite... Era tão bom. A Nona fervia pra gente beber junto com aquele baita café que ela fazia. E da nata que ficava em cima, ela fazia um queijinho que era de comer chorando, chimiado no pão que ela TAMBÉM fazia, com o melado feito lá no tacho do engenho, pelo Vovô.
Ainda sobre o Engenho... Nele, foi onde o Vovô fez um carrinho de madeira pra mim.
Sensacional né? Com assento, freio, tinha até volante.
E as escadinhas do Engenho, a gente descia e chegava até a janela de onde dava pra colher os “moranguinhos do mato” que estavam bem pertinho, e um pouco mais do lado, a gente pulava o arame farpado, pra colher uns limões e bergamotas, e depois íamos descer de zorra lá do topo do pasto.
Antes, nesta hora, o que se ouvia já eram os gritos de crianças felizes brincando, de toda e qualquer brincadeira nos arredores, bastava a imaginação.
Agora, o que se ouve, é apenas o barulho da máquina demolindo tudo. Colocando abaixo uma geração inteira de felicidade.
Só restaram as lembranças, muito boas por sinal.
Obrigada, Engenho, obrigada velho Rancho e Estrebaria, por cada dia que passei cometendo as mais sensacionais peraltices da minha infância.
E é com pesar, que comunico que ontem, se iniciou uma nova fase, aqui no sítio, que de sítio, já não tem tanto quanto eu gostaria. Com lágrimas ocultas, com nós na garganta, com saudades de tempos que não voltarão jamais, temos que seguir.
E realmente, as vacas e cavalos conversavam sobre algo real, sobre como a vida é engraçada e passageira.