Olá!
Bem engraçado isso...
Nesses meus quase 21 anos, conversei mais contigo por meios virtuais do que pessoais.
Será que existe aula de conversação para Mãe e Filha?
Acho que não, e já passou a época que eu gostaria que isso acontecesse.
Toda a minha vida eu tenho me humilhado correndo atrás de ti.
Sempre dei o primeiro passo, e continuei no decorrer dos anos sendo rejeitada entre as linhas das tuas frases.
Não compreendo. Eu NUNCA te fiz mal algum.
Sei que não teve mãe, e sinto muito por isso.
Mas, isso não justifica o fato de sempre me rejeitar, pois os teus outros dois filhos sempre trataste mesmo como filhos.
Sabe o que é chegar em casa da escola e você pedir só pro teu primogênito com foi aula? E eu, nem um oi ouvia...
Sabe o que é ouvir da própria mãe que não fui abortada por falta de dinheiro?
Sabe como pesou pra mim cada ofensa que recebi de ti?
Você me educou, me ensinou a ler, me alimentou, me vestiu... Nunca me deixou faltar nada - material - .
Houve uma época em que eu achava que este era apenas o teu jeito de demonstrar teu "amor" por mim, mas hoje percebo que fez isso tudo por obrigação, já que me abortar não podia.
Nunca senti amor sincero da tua parte.
Cada abraço teu, não foi sincero.
Cada "eu te amo" que me disse, - que não foram muitos -, não foram sinceros.
Foram apenas uma maneira de não me decepcionar.
De não me deixar frustrada.
"Coitadinha, não pode conhecer o pai, já que Deus o quis levar antes do tempo".
Eu tô cansada, aliás, eu cansei de tentar.
De tentar receber amor teu.
Tenho mágoas aqui dentro, que não possuem cura... Que eu terei que aprender a conviver, pois elas permanecerão aqui para sempre... E cada dia vão me matando, me consumindo aos poucos.
Você tem razão, aliás mãe, você sempre teve - Eu saí de casa por escolha minha. Mas saiba que eu não queria. Fui tão mal amada (ou poderia dizer "não fui amada"), que não via outra saída.
Sabe o que é não ser bem vinda na sua própria casa?
Tá, eu sei que você sabe.
Sei que sofreu muito na vida.
Sei de tudo.
Só não entendo porque nunca me contou?
Afinal, eu sou tua filha.
Tua única filha mulher.
Mesmo que você não tenha me planejado, e muito menos desejado meu nascimento com vida...
Mesmo com todas as circunstâncias negativas, mesmo assim, deveria ter me contado o porquê de você ser assim comigo. SÓ COMIGO.
Sou muito parecida contigo? É isso?
Você tem medo ou o que?
Você liga todo o sofrimento que carrega no coração ao meu nascimento ou o que?
Estou tentando transformar toda essa mágoa em força, para suportar isso.
Eu tô cansada dessa merda toda.
Nunca tô feliz, e tô sempre enchendo meu vazio com coisas que não adiantam.
Eu cansei de me humilhar, aí eu fiz esta carta, que é praticamente a mesma coisa. Tão inútil e falha como qualquer tentativa minha de suicídio até hoje.
Fazem quase 3 meses que me mudei, e você nem se quer ligou pedindo se eu tinha comida na dispensa.
Não tenho culpa da sua multipolaridade, nem da minha, afinal, puxei de ti.
Não tenho culpa de nada.
Ou até tenho.
De estar só fazendo coisas erradas a respeito disso.
Eu tenho quase 21 anos, e sempre estivemos nessa de "fazer as pazes" e desfazer.
Eu tô cansada.
Eu queria ter recebido amor do meu pai, mas que culpa que eu tenho se ele morreu antes mesmo de eu falar uma palavra ou dar o primeiro passo?
E você, que culpa tem?
Nenhuma mãe.
Deus quis assim.
E talvez a vontade de Deus seja que eu fique longe da tua vida.
E como você mesma disse, eu devo tocar a minha vida, que você tocará a tua.
Perdão mesmo mãe. E eu te perdôo por tudo, por todos os erros que cometeu comigo... Perdôo do fundo do meu coração, mas, não venha querer de mim agora, o amor que eu não tive minha vida toda.
E sabe o que é o mais irônico de toda minha mágoa?
É sentir vontade de ser consolada por quem me magoou.
E talvez até rolaria aquele feijão carioquinha com caldo grosso, arroz, e frango, o que eu mais amava... E que não sei o que é há uns 5 meses.
Eu desisti de nós.
E estou desistindo de mim.
E sinto muito, mas já não faço questão.
(escrevi este texto por simples desabafo, sei que não surtirá o efeito desejado. Era uma carta que tenho aqui manuscrita no caderno da faculdade... que eu entregaria para minha mãe, no dia das mãe, mas como já não tenho contato com ela, registro aqui, pra liberar um pouco essa mágoa... enfim)